Acordou meio lento. Mas o dia tava bonito. Abriu a porta da varanda e encarou o dia. Se espreguiçou caminhando em direção ao banheiro. Seu pé aderia ao chão do jeito que só um chão limpo poderia proporcionar. Havia optado por cuidar mais da limpeza da casa depois que encontrou um carrapato em sua coxa. Colheu os resultados da faxina durante a caminhada. Podia sentir os tacos de madeira do piso.
Lavou o rosto, vestiu uma bermuda e levou o cachorro pra passear. Sem problemas. O canino cagou no pé da árvore da rua de cima. Ele recolheu usando um saquinho branco. O saquinho que guardou três brigadeiros, que ele comeu com sua namorada nas três últimas noites, depois de assistir The Big Lebowski.
Carregou a merda do cachorro até a lixeira em frente à sua casa. "Que vida hein sacola? Ontem brigadeiro, hoje bosta." Em casa, pegou uma garrafa de suco de laranja pasteurizado e se serviu. Conversou com sua namorada pela internet. Ela estava no trabalho. Ele lembrava dela dando um beijo de tchau horas antes, e ele respondia que também a amava. Era quase um sonho. Ele estava muito sonolento.
O dia foi todo assim, sentado, tentando começar uma tarefa e falhando. Se masturbou duas vezes. A janela estava aberta e ele teve receio de ser visto com a mão na massa. Alguém de uma janela a sudoeste tem ampla visão de seu pênis pelo lado esquerdo, caso olhe do canto direito inferior da janelinha do banheiro - ele é canhoto.
Às quatro e vinte da tarde, resolveu tirar as tralhas da varanda, para a casa ter mais um cômodo. Sua namorada ia gostar. Recolheu as roupas do varal e livrou espaço. Se deparou com plataformas de madeira que eles usavam como sofá, quando apoiavam algumas almofadas por cima. Agora eram só plataformas de madeira, criando mofo, encostadas no canto da varanda. Eles pensaram em se desfazer delas, mas ele tinha uma ideia melhor.
Escolheu a dedo o som. Um dos discos novos, que haviam comprado na última feira. Desceu a agulha e os chiados começaram. Um rockabilly característico. Era uma carta saudosista para o futuro.
Deu uns tragos e uns passinhos. "Oxalá, Oxum, Dendê, Oxóssi de não sei o quê".
Apoiou a plataforma sobre um caixote e avaliou seu estado. Muito mofo. Rasgou um pedaço de lixa de madeira e começou o trabalho. Lixando a madeira e observando os folículos do fungo se misturando com o ar. A cada golpe, percebia um misto de oxigênio, madeira e as moléculas tóxicas daquele ser vivo estranho flutuando no ar, em direção aos céu.
O cão parou ao seu lado como faria o Chaves, assistindo Seu Madruga assoviar "Carpinteiro do Universo" e lixar as tábuas do palco do Festival da Boa Vizinhança. O cão perguntou: "o que você está fazendo?". Seu Madruga respondeu: "saia daqui! Essas esporas de mofo são perigosas e podem ficar grudadas em seu pulmão, entoxicando seu corpo e te matando em questão de minutos!".
O cão foi embora enquanto ele ria da própria piada. Na vitrola, tocava um som mais denso. "O hoje é apenas um furo no futuro, por onde o passado começa a jorrar".A carta pro futuro de novo. Mas dessa vez era quase um testamento. Imaginou o pó que subia indo direto às suas narinas. Levantou para virar o disco.
Voltou e sentiu um ligeiro medo do que estava fazendo, inalando aquela espessa carga de mofo. Mas continuou mesmo assim, descontando na tábua a culpa de estar se suicidando com a melhor das intenções.
Novamente, cada golpe levantava o pó, e ele imaginava a cena de uma guerra civil em câmera lenta, onde o Estado era seu braço libertando o povo mofado, que em contra-golpe invadia seus pulmões e arrancava seus fios da tomada e destruia todos os computadores do sistema nervoso central.
Com metade da capacidade de processamento de dados, ele sentiu sede. O copo em cima da penteadeira estava vazio. Suas mãos tremiam. Foi até o banheiro e se olhou no espelho. Estava saudável. Lavou o rosto uma vez. Sentiu a água gelada batendo em sua cara e escorrendo pelos fios do bigode.
A vitrola disse: "eu ando de passo leve pra não acordar o dia, sou da noite a companheira mais fiel que ela queria", enquanto ele tombava como a estátua de um ditador cruel, durante a cena final de um jogo pós apocalíptico.
Meus Últimos Dias
Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto.
terça-feira, 25 de novembro de 2025
O Fone Phillips
- Curioso doutor, em minha última visita, lembro que falei sobre a saudade de casa. Muito tempo se passou. Muita coisa aconteceu. Coisas que eu não tenho muita lembrança, não sei por que motivo. Esse espaço costumava servir para que eu desabafasse de modo ligeiramente poético. Eu achava bonito. E confundi isso com uma vocação. Fui tentar a vida escrevendo e falhei...
- Falhou? Seus serviços de jornalista ainda são requisitados.
- Você chama isso de jornalismo? Não há notícia quando um cachorro morde uma pessoa. É quando a pessoa morde o cachorro que a notícia existe. O mesmo vale para os entusiastas da arte que passam a vida almejando um um espaço nesta concorrida panelinha de pressão que eu me meti.
- Mesmo assim, sua opinião ainda importa para eles.
- Mas eu sou um farsante, doutor. Eu não entendo nada do que eles falam, Eu apenas sorrio e faço piadas até que venha o próximo assunto.
- Você sabe que isso não é verdade. Mas vamos voltar para a saudade de casa, porque você sempre emenda um assunto no outro e não acaba nenhum.
- Tá certo. Eu tinha saudades de casa. Bom, ainda tenho. Mas o mais estranho é que estou em casa agora, e continuo sentindo.
- Talvez seja porque houve uma mudança de local enquanto você estava fora,
- Sim, e eu perdi meu quarto também. Sinto muita falta do meu quarto. Um espaço só meu onde eu pudesse me enclausurar.
- Será que hoje você não estaria mais depressivo se estivesse naquele buraco cheio de mofo e uma janela que dá pra um muro?
- Muito provavelmente. E ainda estaria tentando arrumar um jeito de me livrar da culpa. Essa culpa toda é muito pesada, doutor.
- E você sabe de onde ela vem, Lucas?
- Não.
- Eu menos.
- Do cristianismo, talvez?
- HAHAHA, boa piada.
- Por exemplo, doutor. Perdi meu fone de ouvido esses dias. Era um fonezinho daqueles Phillips, que custa vintão, mas que te faz economizar no longo prazo, porque dura mais que os de cinco reais que vende na estação de trem. E eu sempre deixava ele junto com minha carteira e minhas chaves, porque só usava pra sair mesmo. Em casa eu gosto dos headphones, que tem mais resposta e deixam o som mais limpo. Faz diferença, doutor. Eu sou chato com essas coisas. Cê tem que ver como fica a voz do Milton com aquele que a Talita me deu...
- Você está desvirtuando o assunto de novo.
- Tem razão. Então, perdi o fone. Aí fui na loja de eletrônicos e comprei outro. Paguei 16, achei bom, quatro reais fazem diferença, doutor, eu tô desempregado... Mas aí meu pai arrumou tudo em casa hoje e sei lá onde ele meteu meu fone Phillips. Agora tenho que ouvir música bem baixinho pra não acordar ninguém.
- E por que não usa o que a Talita te deu?
- Porque ele aperta minha cabeça quando fico muito tempo usando. O ponto é: se eu estivesse num lugar só meu, saberia exatamente onde guardei o fone Phillips.
- Mas será que você precisaria dele? Se estivesse sozinho, poderia ouvir a música que quisesse, no volume que quisesse, em tese.
- É, agora que falei me sinto um bobo por reclamar disso. Mas dá pra sacar a ironia dessa situação né? Relacionando com a saudade de casa e tal.
- Naturalmente. Mas talvez não esteja com saudade de casa, e sim de si mesmo. O que fizeram com você, Lucas? Ou melhor: o que você fez consigo mesmo para ganhar a aprovação dos outros?
- Essa é uma boa pergunta.
- Sim. Talvez você devesse tentar se lembrar de quem você era antes de sentir falta de casa. Talvez seus pais possam te ajudar nisso. Volte quando tiver a resposta. Seu tempo comigo acabou por hoje.
quarta-feira, 8 de junho de 2016
Cotidiano
Quarta feira, 1:18 da manhã. Batatas fritas, esfirras e kibes do
habibs esquentados no microondas, a quarta lata de Itaipava. Na TV um desenho
qualquer imita um reality show para crianças. Estou descobrindo o primeiro EP
do sonic youth. Queria ter como tirar uma foto que registrasse todo esse momento. Não tenho essa
capacidade.
O que há de mais belo na pós-modernidade também é o que há
de mais deprimente: a decadência da realidade. A vida real é ridícula de tão
real. A realidade arde, queima, ferve, machuca.
O Brasil meteu 7 no Haiti. Palermas comemoraram como “o
nosso 7x1”. “Demos o troco”, eles disseram. O Luciano Huck é o nosso brasileiro
mais carismático. Ele comentou o jogo. Falou que quando foi ao Haiti, perdeu a
esperança na humanidade. Eu queria ver a cara do Luciano Huck ao se deparar com
meia dúzia de escombros de uma cidade em ruínas. Bem diferente de qualquer
propaganda do Itaú.
Os haitianos enxergam os brasileiros como soldados
fortemente armados. Os brasileiros enxergam os haitianos como imigrantes
ilegais. Vendedores de relógios e fones de ouvido contrabandeados. O Brasil é a
potência imperialista da América Latina. Fizemos tudo errado.
Eu ainda ouço que sou existencialista demais pra conviver
com gente materialista. Como feministas radicais. Elas não tem tempo pra minhas
conjecturas porque estão ocupadas tentando mudar o mundo pela raiz. Eu ainda
acho que nada vai dar certo. Deus está morto?
Ofereço batata pro meu cachorro. Ele recusa, eu como. Vejo
artistas no facebook. São artistas ou só tem dinheiro pra fumar maconha demais?
A quarta lata acabou. Pego mais uma? As esfirras vão me dar azia, tenho
certeza.
Esqueci de dizer. Um grande símbolo da luta burguesa contra
a corrupção foi preso por contrabando. O japonês da federal. E pensar que a máscara
com a cara dele estampada foi uma das mais vendidas no carnaval deste ano. Não quero
pensar nisso. Rolo mais um pouco a timeline. Vejo a foto da Britney Spears sem
calcinha saindo de um carro. A bucetinha depilada dela parece só uma racha
qualquer. Uma dobra, como o meu sovaco.
Mas é excitante porque é a buceta da Britney Spears. Eu, um
reles mortal, um plebeu, não estou autorizado a ver a buceta da Britney Spears.
Mas eu olho mesmo assim. Um fotógrafo oportunista clicou o momento exato, jogou
a foto na internet e me deu o passe livre. Imediatamente me sinto tão privilegiado
que fico de pau duro. Não é a buceta que me excita, é a possibilidade. É poder.
O poder é o grande combustível da humanidade.
Numa relação sexual, a camisinha bloqueia qualquer conexão
sensorial via tato. Meu pau não sente nada. Eu sinto pelas mãos, pelo toque e,
principalmente, pela relação de poder. Se minha mulher se abre e se entrega
para mim, eu a preencho e domino, me sinto poderoso, pleno e capaz, e gozo. Meu
orgasmo não tem a ver com o sexo, com o atrito das terminações nervosas da
minha glande com as terminações nervosas das paredes vaginais de minha mulher,
mas com o quanto eu sou capaz de sentir prazer sendo opressor e do quanto ela
pode se permitir sentir-se submissa. “Sou sua vadia” eu ouvi certa vez. Foi excitante.
Imagino a Britney Spears me falando isso abrindo as pernas no banco de trás de
um carro e me pedindo pra fodê-la com força e no pêlo, e pronto, já estou com a mão na massa.
Sexo com amor é outra história. Confiança. Troca de
carinhos, induções. Toque sem pretensão. Vamos ver no que vai dar, e quando vê tá
lá, dentro, sentindo cada milímetro como uma corrente elétrica de baixa
voltagem. Pequenas cargas de orgasmo, suspiros. Não encoste em mim por alguns
segundos, mas pode me abraçar. Por que no fim eu sempre acabo caindo nesse assunto? Abro outra cerveja? Não, melhor caçar um doce de
sobremesa.
sexta-feira, 27 de maio de 2016
Papel de Homem
Um dia eu estava bêbado numa festa e me senti na obrigação
de contar a um amigo meu que já tinha transado com a garota que ele é
apaixonado. Foi uma vez, sexo sem importância, depois de beber pra caralho.
"Eu não pude evitar!", eu disse, enquanto ele dava tragadas
constantes em seu cigarro. Eu não queria deixar esse segredo me corroer por
mais tempo. Eu gostava muito dos dois e amava vê-los juntos e felizes, e não
queria que esta memória fosse uma mancha permanente na imagem que eu tinha
deles.
Ele me cumprimentou, me abraçou e respondeu "você foi
macho". Eu encarei esta resposta como um elogio, um sinônimo de 'corajoso'
ou 'honesto'. Achei que tivesse cumprido meu papel de homem de deixar tudo a
panos limpos. Ledo engano.
Minutos se passaram até ela chegar em mim, em prantos, me
indagando com veemência o motivo de eu ter contado aquilo pra ele. "Você
não sabe tudo que eu estou passando, você não tem ideia do que você me
causou", ela me disse. Eu realmente não tinha ideia. Quando tentei explicar
pra ela o motivo de eu querer esclarecer as coisas com ele, foi pra mim que as
coisas ficaram claras. "Coisa de homem" eu falei, "eu precisava
contar porque ele é meu amigo e somos homens". Moisés, o Antigo
Testamento, as Leis de Deus, o velho papo machista do nono mandamento: Não
desejarás a mulher do próximo.
Quando ela foi embora chorando, eu entendi porque fui macho.
Mais do que isso, nunca desejei tanto nunca ter sido macho. Meu mundo desabou.
As luzes apagaram, a música parou, o bar fechou. Paguei a conta mais cara da
minha vida.
Ontem vi um monte
de gente compartilhando a notícia de um estupro coletivo, onde mais de trinta
homens abusaram sexualmente de uma garota desacordada, fizeram vídeos e fotos e
postaram na internet. Mais que mulheres indignadas, eu vi caras esquivando de
ataques dizendo que nem todos os homens são escrotos a ponto de cometer uma
barbaridade dessas. Mas será que o cara que compartilhou o vídeo dizendo que
"amassaram a mina kkk" se sente um bárbaro escroto? Será que ele
percebe seu grau de responsabilidade num ato desta magnitude?
Eu não percebi. Cumprindo meu ~papel de homem~ eu magoei uma
mulher inocente que eu só quis tratar bem, respeitar, admirar, ter por perto e
nunca, NUNCA magoar. Então, qual é o meu nível de estuprador em potencial por
ter que cumprir este papel?
Se eu, do alto das minhas ~desconstruídas boas intenções~,
ainda ajo através de retrógradas convenções sexistas para justificar meus atos
irresponsáveis e deixar tranquila a minha consciência egoísta, quanto tempo
todos nós, homens, tão orgulhosos de nossa macheza, vamos levar até parar de
achar divertido (e até prazeroso) ignorar, diminuir, ofender, oprimir, agredir,
machucar ou até mesmo matar um indivíduo apenas por ele ter uma construção genética
diferente da nossa? E por que ainda acreditamos que temos que ser sempre os
conquistadores, os invasores, os desbravadores que teimam em fincar bandeiras e
demarcar territórios e posses sobre outros indivíduos?
Depois
de anos traindo minha avó com uma menina 40 anos mais
nova, meu avô foi descoberto pelos próprios filhos. Sem nenhuma
vergonha, ele
bateu na mesa dizendo ter cumprido seu papel de homem. Meu pai falou pra
ele: “painho,
o senhor foi macho pra tantas mulheres mas não foi pra uma só: a que
fazia sua
comida e lavava suas cuecas”. Então talvez ser macho não seja exatamente
um
elogio. Talvez a obrigação em cumprir nosso papel de homem só esteja nos
levando
pra um abismo sem fundo de falta de respeito e complacência, e as minas
estejam
certas em condenar TODOS os homens pelo erro bárbaro de trinta, porque
enquanto continuarmos fazendo vista grossa pra atrocidades como esta,
estaremos
alimentando o monstro que vai devorar nossas irmãs, primas, filhas e
netas.
domingo, 1 de maio de 2016
garota indie francesa que vende flores, eu queria parar de sonhar com você
eu queria parar de sonhar com você. porque eu sei que tudo isso não passa de uma paixão platônica que eu alimento indiretamente através da minha repulsa por você. sempre foi assim, desde quando a gente sentava lado a lado e eu sentia uma certa parceria vinda de você. eu me sentia confortável em responder no trabalho pra alguém parecido comigo.
lembro de dançar muito bem ao seu lado. lembro de como na minha cabeça a gente formava um bom par. e quando a gente sentava pra descansar ainda rolava um bom papo e boas risadas.ainda lembro daquela noite estranha no alberta em que colamos eu, você e seu atual namorado. na época todo mundo era solteiro. mesmo você sendo minha chefe, eu sinceramente achei que tinha alguma chance. e, ainda sinceramente, na minha cabeça machista parecia muito que você estava curtindo com nós dois pra ver quem agia primeiro.
eu fui buscar uma bebida e quando voltei vocês estavam se beijando. além da sensação infantil de ter sido jogado às traças, ainda tive que conviver com o fato de ser a única testemunha disso, e nesse caso, um cúmplice. o único cúmplice. me senti com 16 anos. o tempo passa, mas algumas coisas nunca mudam. deus sabe o quanto eu já pratiquei a famigerada autossabotagem.
depois disso você passou a se comportar diferente. em seu olhar eu via bem distante aquela garota que ria das minhas piadas, mas sua postura era sempre com um ar superior. isso me comeu a mente. quando a gente tinha reuniões de feedback você olhava pra mim com os mesmos olhos do alberta, das danças mas mantinha suas firmes decisões de "menos estilo, mais informação" e "ninguém se importa com você, lucas". palavras duras que só líderes natos - ou aspirantes - tem as manha de falar.
passei a renegar você porque tenho dificuldades em aceitar ordens. não elogiava mais o seu cabelo, não mostrava mais gifs de gatos, não fazia mais piadas com você. era só entregar o trabalho e usar muito fone de ouvido. a gente sentava lado a lado e raramente se falava pelo chat.
lembro quando fizemos as pazes, antes de eu sair de lá. foi algo meio de igual pra igual. ali eu percebi que sua postura de chefe era só pose mesmo, mas que você precisava manter porque estávamos num ambiente de trabalho, e você já tinha companhia garantida para a hora do almoço.
é claro que tudo que eu to falando é baseado nas minhas impressões, e eu posso estar redondamente enganado pelo seu cabelo maneiro e seu sotaque mineiro. é que ás vezes eu ainda me sinto com 16 anos.
hoje eu sonhei que você tinha uma banda e eu ia assistir o seu show. sua banda tinha um público cativo e você tinha uma puta presença de palco. usava um vestido preto e cantava com atitude. eu sempre paguei um pau pro seu cabelo tingido de loiro com a raiz aparecendo. agora você tá vivendo o sonho da garota indie francesa que vende flores. acho que você nunca mais vai voltar de Paris. eu só queria parar de sonhar com você.
lembro de dançar muito bem ao seu lado. lembro de como na minha cabeça a gente formava um bom par. e quando a gente sentava pra descansar ainda rolava um bom papo e boas risadas.ainda lembro daquela noite estranha no alberta em que colamos eu, você e seu atual namorado. na época todo mundo era solteiro. mesmo você sendo minha chefe, eu sinceramente achei que tinha alguma chance. e, ainda sinceramente, na minha cabeça machista parecia muito que você estava curtindo com nós dois pra ver quem agia primeiro.
eu fui buscar uma bebida e quando voltei vocês estavam se beijando. além da sensação infantil de ter sido jogado às traças, ainda tive que conviver com o fato de ser a única testemunha disso, e nesse caso, um cúmplice. o único cúmplice. me senti com 16 anos. o tempo passa, mas algumas coisas nunca mudam. deus sabe o quanto eu já pratiquei a famigerada autossabotagem.
depois disso você passou a se comportar diferente. em seu olhar eu via bem distante aquela garota que ria das minhas piadas, mas sua postura era sempre com um ar superior. isso me comeu a mente. quando a gente tinha reuniões de feedback você olhava pra mim com os mesmos olhos do alberta, das danças mas mantinha suas firmes decisões de "menos estilo, mais informação" e "ninguém se importa com você, lucas". palavras duras que só líderes natos - ou aspirantes - tem as manha de falar.
passei a renegar você porque tenho dificuldades em aceitar ordens. não elogiava mais o seu cabelo, não mostrava mais gifs de gatos, não fazia mais piadas com você. era só entregar o trabalho e usar muito fone de ouvido. a gente sentava lado a lado e raramente se falava pelo chat.
lembro quando fizemos as pazes, antes de eu sair de lá. foi algo meio de igual pra igual. ali eu percebi que sua postura de chefe era só pose mesmo, mas que você precisava manter porque estávamos num ambiente de trabalho, e você já tinha companhia garantida para a hora do almoço.
é claro que tudo que eu to falando é baseado nas minhas impressões, e eu posso estar redondamente enganado pelo seu cabelo maneiro e seu sotaque mineiro. é que ás vezes eu ainda me sinto com 16 anos.
hoje eu sonhei que você tinha uma banda e eu ia assistir o seu show. sua banda tinha um público cativo e você tinha uma puta presença de palco. usava um vestido preto e cantava com atitude. eu sempre paguei um pau pro seu cabelo tingido de loiro com a raiz aparecendo. agora você tá vivendo o sonho da garota indie francesa que vende flores. acho que você nunca mais vai voltar de Paris. eu só queria parar de sonhar com você.
domingo, 29 de junho de 2014
Carta pra casa
Agora
pego um caminhão,
Na
lona, vou a nocaute outra vez
Esse
disco é saudade. Instrospecção. Buscar algo em si que não existe. Buscar chão.
Percebi
isso hoje, mãe e pai, quando me peguei sentindo falta de casa. Uma saudadezinha
besta, sem crise, mas atravessada. O gustavo tava aqui e eu podia pegar carona
com ele e visitar vocês. Mas não fui.
É
estranho, porque eu sei que posso aparecer aí a qualquer hora e vai ser legal e
tudo, mas sinto falta é de casa mesmo. E não me entendam mal, não tô falando que
a nova casa que vocês estão morando é ruim.
Por « casa » entendam como aquela sensação de proteção e
conforto que existia antes dessa selva de pedra me engolir.
Amadurecer é mesmo um bicho de sete cabeças.
Fui fazer o almoço e coloquei esse disco pra tocar, como já ouvi em vários
domingos em Casa. Domingos de vários aromas, cores, temperaturas. E todos eles
com o Zé tocando alto nos falantes. Memórias afetivas que hoje reverberam forte
na minha cabeça. De saudade, a boa saudade.
Me peguei pensando nos motivos pelos quais
este disco sempre tocava em casa, naqueles tempos áureos do bairro Batistini :
Minha mãe picando cebola na pia, sob aquele brilho bonito do sol rebatido
vermelho da parede sem reboco do vizinho. Meu pai fazendo algum trabalho manual
no quintal, entoando versos dessincronizados que ecoavam pelo vão do terreno em
declive. Eu e meu irmão jogando videogame, ocasionalmente batendo um no
outro.
E lá em casa esse disco tocava. Por
quê ? Talvez pelo mesmo motivo que eu, um recém adulto cheio de vontade de
realizar coisas, com medo de não suportar responsabilidade demais, ouço ele
agora : saudade de casa. Louco ter vinte e poucos né ?
O disco acabou, o macarrão tá pronto.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
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