terça-feira, 25 de novembro de 2025

Carpinteiro do Universo

Acordou meio lento. Mas o dia tava bonito. Abriu a porta da varanda e encarou o dia. Se espreguiçou caminhando em direção ao banheiro. Seu pé aderia ao chão do jeito que só um chão limpo poderia proporcionar. Havia optado por cuidar mais da limpeza da casa depois que encontrou um carrapato em sua coxa. Colheu os resultados da faxina durante a caminhada. Podia sentir os tacos de madeira do piso.

Lavou o rosto, vestiu uma bermuda e levou o cachorro pra passear. Sem problemas. O canino cagou no pé da árvore da rua de cima. Ele recolheu usando um saquinho branco. O saquinho que guardou três brigadeiros, que ele comeu com sua namorada nas três últimas noites, depois de assistir The Big Lebowski.

Carregou a merda do cachorro até a lixeira em frente à sua casa. "Que vida hein sacola? Ontem brigadeiro, hoje bosta." Em casa, pegou uma garrafa de suco de laranja pasteurizado e se serviu. Conversou com sua namorada pela internet. Ela estava no trabalho. Ele lembrava dela dando um beijo de tchau horas antes, e ele respondia que também a amava. Era quase um sonho. Ele estava muito sonolento.

O dia foi todo assim, sentado, tentando começar uma tarefa e falhando. Se masturbou duas vezes. A janela estava aberta e ele teve receio de ser visto com a mão na massa. Alguém de uma janela a sudoeste tem ampla visão de seu pênis pelo lado esquerdo, caso olhe do canto direito inferior da janelinha do banheiro - ele é canhoto.

Às quatro e vinte da tarde, resolveu tirar as tralhas da varanda, para a casa ter mais um cômodo. Sua namorada ia gostar. Recolheu as roupas do varal e livrou espaço. Se deparou com plataformas de madeira que eles usavam como sofá, quando apoiavam algumas almofadas por cima. Agora eram só plataformas de madeira, criando mofo, encostadas no canto da varanda. Eles pensaram em se desfazer delas, mas ele tinha uma ideia melhor.

Escolheu a dedo o som. Um dos discos novos, que haviam comprado na última feira. Desceu a agulha e os chiados começaram. Um rockabilly característico. Era uma carta saudosista para o futuro.
Deu uns tragos e uns passinhos. "Oxalá, Oxum, Dendê, Oxóssi de não sei o quê".

Apoiou a plataforma sobre um caixote e avaliou seu estado. Muito mofo. Rasgou um pedaço de lixa de madeira e começou o trabalho. Lixando a madeira e observando os folículos do fungo se misturando com o ar. A cada golpe, percebia um misto de oxigênio, madeira e as moléculas tóxicas daquele ser vivo estranho flutuando no ar, em direção aos céu.

O cão parou ao seu lado como faria o Chaves, assistindo Seu Madruga assoviar "Carpinteiro do Universo" e lixar as tábuas do palco do Festival da Boa Vizinhança. O cão perguntou: "o que você está fazendo?". Seu Madruga  respondeu: "saia daqui! Essas esporas de mofo são perigosas e podem ficar grudadas em seu pulmão, entoxicando seu corpo e te matando em questão de minutos!".

O cão foi embora enquanto ele ria da própria piada. Na vitrola, tocava um som mais denso. "O hoje é apenas um furo no futuro, por onde o passado começa a jorrar".A carta pro futuro de novo. Mas dessa vez era quase um testamento. Imaginou o pó que subia indo direto às suas narinas. Levantou para virar o disco.

Voltou e sentiu um ligeiro medo do que estava fazendo, inalando aquela espessa carga de mofo. Mas continuou mesmo assim, descontando na tábua a culpa de estar se suicidando com a melhor das intenções.
Novamente, cada golpe levantava o pó, e ele imaginava a cena de uma guerra civil em câmera lenta, onde o Estado era seu braço libertando o povo mofado, que em contra-golpe invadia seus pulmões e arrancava seus fios da tomada e destruia todos os computadores do sistema nervoso central.

Com metade da capacidade de processamento de dados, ele sentiu sede. O copo em cima da penteadeira estava vazio. Suas mãos tremiam. Foi até o banheiro e se olhou no espelho. Estava saudável. Lavou o rosto uma vez. Sentiu a água gelada batendo em sua cara e escorrendo pelos fios do bigode.

A vitrola disse: "eu ando de passo leve pra não acordar o dia, sou da noite a companheira mais fiel que ela queria", enquanto ele tombava como a estátua de um ditador cruel, durante a cena final de um jogo pós apocalíptico.

O Fone Phillips

- Curioso doutor, em minha última visita, lembro que falei sobre a saudade de casa. Muito tempo se passou. Muita coisa aconteceu. Coisas que eu não tenho muita lembrança, não sei por que motivo. Esse espaço costumava servir para que eu desabafasse de modo ligeiramente poético. Eu achava bonito. E confundi isso com uma vocação. Fui tentar a vida escrevendo e falhei...
- Falhou? Seus serviços de jornalista ainda são requisitados.
- Você chama isso de jornalismo? Não há notícia quando um cachorro morde uma pessoa. É quando a pessoa morde o cachorro que a notícia existe. O mesmo vale para os entusiastas da arte que passam a vida almejando um um espaço nesta concorrida panelinha de pressão que eu me meti.
- Mesmo assim, sua opinião ainda importa para eles.
- Mas eu sou um farsante, doutor. Eu não entendo nada do que eles falam, Eu apenas sorrio e faço piadas até que venha o próximo assunto.
- Você sabe que isso não é verdade. Mas vamos voltar para a saudade de casa, porque você sempre emenda um assunto no outro e não acaba nenhum.
- Tá certo. Eu tinha saudades de casa. Bom, ainda tenho. Mas o mais estranho é que estou em casa agora, e continuo sentindo.
- Talvez seja porque houve uma mudança de local enquanto você estava fora,
- Sim, e eu perdi meu quarto também. Sinto muita falta do meu quarto. Um espaço só meu onde eu pudesse me enclausurar.
- Será que hoje você não estaria mais depressivo se estivesse naquele buraco cheio de mofo e uma janela que dá pra um muro?
- Muito provavelmente. E ainda estaria tentando arrumar um jeito de me livrar da culpa. Essa culpa toda é muito pesada, doutor.
- E você sabe de onde ela vem, Lucas?
- Não.
- Eu menos.
- Do cristianismo, talvez?
- HAHAHA, boa piada.
- Por exemplo, doutor. Perdi meu fone de ouvido esses dias. Era um fonezinho daqueles Phillips, que custa vintão, mas que te faz economizar no longo prazo, porque dura mais que os de cinco reais que vende na estação de trem. E eu sempre deixava ele junto com minha carteira e minhas chaves, porque só usava pra sair mesmo. Em casa eu gosto dos headphones, que tem mais resposta e deixam o som mais limpo. Faz diferença, doutor. Eu sou chato com essas coisas. Cê tem que ver como fica a voz do Milton com aquele que a Talita me deu...
- Você está desvirtuando o assunto de novo.
- Tem razão. Então, perdi o fone. Aí fui na loja de eletrônicos e comprei outro. Paguei 16, achei bom, quatro reais fazem diferença, doutor, eu tô desempregado... Mas aí meu pai arrumou tudo em casa hoje e sei lá onde ele meteu meu fone Phillips. Agora tenho que ouvir música bem baixinho pra não acordar ninguém.
- E por que não usa o que a Talita te deu?
- Porque ele aperta minha cabeça quando fico muito tempo usando. O ponto é: se eu estivesse num lugar só meu, saberia exatamente onde guardei o fone Phillips.
- Mas será que você precisaria dele? Se estivesse sozinho, poderia ouvir a música que quisesse, no volume que quisesse, em tese.
- É, agora que falei me sinto um bobo por reclamar disso. Mas dá pra sacar a ironia dessa situação né? Relacionando com a saudade de casa e tal. 
- Naturalmente. Mas talvez não esteja com saudade de casa, e sim de si mesmo. O que fizeram com você, Lucas? Ou melhor: o que você fez consigo mesmo para ganhar a aprovação dos outros?
- Essa é uma boa pergunta.
- Sim. Talvez você devesse tentar se lembrar de quem você era antes de sentir falta de casa. Talvez seus pais possam te ajudar nisso. Volte quando tiver a resposta. Seu tempo comigo acabou por hoje.